segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma história de borboletas!



Nós estávamos ali. Lado a lado. Sem dar sentido ao que sentíamos juntas. Nomeávamos apenas o que sentíamos separadas. Era um tipo de precaução.


Era uma tarde quente. O sol caia sob a janela do quarto de Helena, que lia pra mim pela trigésima vez aquele maldito poema.

“Eu não juro.
Não viverei para sempre.
E já disse, eu não juro!..”

- Para! Eu não quero mais ouvi-lo! Eu disse interrompendo-a.

- Você não gosta? Helena perguntou-me com um semblante tristonho.

- Gostar eu gosto. Só não quero mais ouvi-lo. Estou cansada. Quero fazer outra coisa.

- Se está cansada como pode querer fazer outra coisa?

- Só estou cansada de poema. Só de poema. Eu disse num suspiro enquanto levantava-me intencionada a pegar algumas bonecas no baú.

Helena acompanhava meus movimentos de mãos e olhos. E por mais que eu tivesse certeza em ter deixado as bonecas ali, não as encontrava de modo algum.

- Onde estão as bonecas que deixei aqui ontem? Perguntei já cansada de procurá-las à toa.

- Derrubei-as no jardim sem querer. Ainda devem estar no varal.

-Aaah. Eu disse num ar compreensivo e logo olhando pela janela, na tentativa falha de avistar as bonecas.

Sem muito o que fazer deitamos no chão do quarto e ficamos olhando para o teto. Ele já velho, era cheio de manchas e achávamos fantástico como pareciam com desenhos. Barcos, casas, dragões. Essas coisas que a gente só ver em nuvens.

- Marie?

- Oi.

- Você já beijou?

- Beijar? Perguntei confusa, mas ainda assim, mantinha os olhos no teto sujo.

- É! Beijar! Helena disse já se erguendo sobre um dos braços e aproximando o seu rosto do meu.

Acompanhei seu movimento sem nenhuma reação. A proximidade dos rostos me deixou estranhamente desconfortável. Foi um misto de medo e curiosidade que iam se agravando a cada centímetro perdido.

Senti a respiração de Helena pousar em minha boca. E imediatamente fechei os olhos, eu não queria vê-la. Eu só não queria vê-la.

E naquele momento nasceu um beijo, áspero e apressado, mas um beijo. Um beijo nosso.

- Agora já! Foi o que Helena disse respondendo a sua própria pergunta e voltando a sua antiga posição.

- Por que fez isso? Perguntei com os olhos no teto. Faltou-me coragem para olhar em seus olhos.

- Fiz o quê? (Ela também prendia os olhos no teto.)

- Me beijou. Olhei-a incrédula por dissimular nosso beijo.

- Você não gostou? Helena disse num tom triste, como se esperasse que eu mudasse isso.

- Não sei.

- Então foi bom? (Seus olhos ascenderam.)

- Não sei.

- Do que você sabe então? Helena disse de um jeito que me fez soltar um sorriso no canto da boca. Ela também sorriu.

Eu não respondi a sua pergunta, mas continuei sorrindo. Ainda tinha a sensação da boca de Helena. Um doce formigamento percorrendo os meus lábios.

Ficamos quietas.

As cores ficavam cada vez mais vibrantes. O laranja-cor que antes pintava as paredes do quarto agora infiltrava no chão e cobria nossas pernas.

Helena mantinha-se distraída quando eu a olhei. Ela mexia toda na tentativa de alterar o brilho da luz. Depois foi a minha vez de ser vista distraída no meio daquelas cores todas. Nós nos olhávamos sem confessar. Era coisa nossa. Coisa de criança.
Minha mão sentia a poeira do chão quando arrastava na madeira escura e tropeçava na mão de Helena. A princípio não era minha intenção. Mas depois eu quis sentir a mão dela. A mão de Helena. A minha mão. A nossa.

E quando mais uma vez eu esbarrei nossas mãos, Helena segurou-as. Olhei-a nos olhos por impulso. Depois desviei o olhar para nossas mãos. Pequenas e juntas.

Helena sentia o sujo do chão na minha pele. Ela mexia os seus dedos na tentativa de limpar-me, mas não ameaçou nem por um instante soltar o nosso laço.

Fechei os olhos por alguns segundos. Quis só sentir, sem nada ver. Mas foi tempo suficiente para que uma borboleta invadisse o quarto. E só pude vê-la quando Helena soltou minha mão, me obrigando a abrir os olhos.

Não queria vê-la. Sentia raiva dela. Da borboleta. De Helena. Eu quis chorar, mas Helena riu de mim. Da minha raiva por ela e pela borboleta. E consequentemente eu sorri. E sem saber, que aquilo nem era um sorriso.

A borboleta voou por todo o quarto. Helena a seguia com um riso caindo dos lábios. Eu não gostei. E quis ficar longe das duas.
Vi a borboleta pousar no dedo de Helena. Como podia aquilo? Borboletas e dedos. Juntos!

- Foi um beijo! Foi um beijo! Helena disse quase sussurrando para não assustar a borboleta.

E ela quis que a borboleta me beijasse.

- Fica quieta! Você vai ganhar um beijo também.

Eu tive medo. E fechei os olhos com força. Sentia a mão de Helena por perto. Mesmo sem abrir os olhos sentia o cuidado que ela tinha comigo.

Seus dedos tocaram a ponta do meu nariz. E logo em seguida as perninhas da borboleta fizeram o mesmo. Eu abrir os olhos bem devagar. Tive vontade de rir, com aquelas antenas e asas coloridas que me deixavam tonta. Não pude mais ver nenhuma cor separada. Via todas de uma vez só.

Helena sorriu pelo feito. E eu a sentir segurar minha mão, dessa vez com mais força. Com mais vontade. Foi tudo por amor ao beijo.
Fechei os olhos de novo. E quando abrir, Helena e a borboleta estavam na mesma distância.

Nossos narizes se tocaram. A borboleta instintivamente voou, mas era como se ainda estivesse lá. Eu. Helena. A borboleta. Todas paradas no tempo esperando o beijo.

Nossos lábios estavam a um fio de se tocarem. E dessa vez fui eu quem beijou Helena. Foi com mais força do que o planejado. E só por isso deixou de ser beijo. Senti vergonha e só pude olhar para o chão. Helena sorriu e me beijou de volta. Mas seus lábios estavam molhados. E pareceu poesia.

Helena sorriu de novo e foi em pequenos pulos em direção a janela. Debruçando-se toda contra a luz fraca do dia que morria.

- Acho que as bonecas já secaram. Quer brincar? Helena disse como se eu ainda estivesse perguntando sobre das bonecas.

- Quero! Respondi com um sorriso. Porque na verdade, eu ainda estava.