Nós estávamos ali. Lado a lado. Sem dar sentido ao que sentíamos juntas. Nomeávamos apenas o que sentíamos separadas. Era um tipo de precaução.
Era uma tarde
quente. O sol caia sob a janela do quarto de Helena, que lia pra mim pela
trigésima vez aquele maldito poema.
“Eu não juro.
Não viverei para
sempre.
E já disse, eu não
juro!..”
- Para! Eu não quero
mais ouvi-lo! Eu disse interrompendo-a.
- Você não gosta?
Helena perguntou-me com um semblante tristonho.
- Gostar eu gosto.
Só não quero mais ouvi-lo. Estou cansada. Quero fazer outra coisa.
- Se está cansada
como pode querer fazer outra coisa?
- Só estou cansada
de poema. Só de poema. Eu disse num suspiro enquanto levantava-me intencionada
a pegar algumas bonecas no baú.
Helena acompanhava
meus movimentos de mãos e olhos. E por mais que eu tivesse certeza em ter
deixado as bonecas ali, não as encontrava de modo algum.
- Onde estão as
bonecas que deixei aqui ontem? Perguntei já cansada de procurá-las à toa.
- Derrubei-as no
jardim sem querer. Ainda devem estar no varal.
-Aaah. Eu disse num
ar compreensivo e logo olhando pela janela, na tentativa falha de avistar as
bonecas.
Sem muito o que
fazer deitamos no chão do quarto e ficamos olhando para o teto. Ele já velho,
era cheio de manchas e achávamos fantástico como pareciam com desenhos. Barcos,
casas, dragões. Essas coisas que a gente só ver em nuvens.
- Marie?
- Oi.
- Você já beijou?
- Beijar? Perguntei
confusa, mas ainda assim, mantinha os olhos no teto sujo.
- É! Beijar! Helena disse já se erguendo
sobre um dos braços e aproximando o seu rosto do meu.
Acompanhei seu movimento sem nenhuma reação.
A proximidade dos rostos me deixou estranhamente desconfortável. Foi um misto
de medo e curiosidade que iam se agravando a cada centímetro perdido.
Senti a respiração de Helena pousar em minha
boca. E imediatamente fechei os olhos, eu não queria vê-la. Eu só não queria
vê-la.
E naquele momento nasceu um beijo, áspero e
apressado, mas um beijo. Um beijo nosso.
- Agora já! Foi o que Helena disse respondendo
a sua própria pergunta e voltando a sua antiga posição.
- Por que fez isso? Perguntei com os olhos no
teto. Faltou-me coragem para olhar em seus olhos.
- Fiz o quê? (Ela também prendia os olhos no
teto.)
- Me beijou. Olhei-a incrédula por dissimular
nosso beijo.
- Você não gostou? Helena disse num tom
triste, como se esperasse que eu mudasse isso.
- Não sei.
- Então foi bom? (Seus olhos ascenderam.)
- Não sei.
- Do que você sabe então? Helena disse de um
jeito que me fez soltar um sorriso no canto da boca. Ela também sorriu.
Eu não respondi a sua pergunta, mas continuei
sorrindo. Ainda tinha a sensação da boca de Helena. Um doce formigamento
percorrendo os meus lábios.
Ficamos quietas.
As cores ficavam
cada vez mais vibrantes. O laranja-cor que antes pintava as paredes do quarto
agora infiltrava no chão e cobria nossas pernas.
Helena mantinha-se
distraída quando eu a olhei. Ela mexia toda na tentativa de alterar o brilho da
luz. Depois foi a minha vez de ser vista distraída no meio daquelas cores
todas. Nós nos olhávamos sem confessar. Era coisa nossa. Coisa de criança.
Minha mão sentia a
poeira do chão quando arrastava na madeira escura e tropeçava na mão de Helena.
A princípio não era minha intenção. Mas depois eu quis sentir a mão dela. A mão
de Helena. A minha mão. A nossa.
E quando mais uma
vez eu esbarrei nossas mãos, Helena segurou-as. Olhei-a nos olhos por impulso.
Depois desviei o olhar para nossas mãos. Pequenas e juntas.
Helena sentia o sujo
do chão na minha pele. Ela mexia os seus dedos na tentativa de limpar-me, mas
não ameaçou nem por um instante soltar o nosso laço.
Fechei os olhos por
alguns segundos. Quis só sentir, sem nada ver. Mas foi tempo suficiente para que
uma borboleta invadisse o quarto. E só pude vê-la quando Helena soltou minha
mão, me obrigando a abrir os olhos.
Não queria vê-la.
Sentia raiva dela. Da borboleta. De Helena. Eu quis chorar, mas Helena riu de
mim. Da minha raiva por ela e pela borboleta. E consequentemente eu sorri. E
sem saber, que aquilo nem era um sorriso.
A borboleta voou por
todo o quarto. Helena a seguia com um riso caindo dos lábios. Eu não gostei. E
quis ficar longe das duas.
Vi a borboleta
pousar no dedo de Helena. Como podia aquilo? Borboletas e dedos. Juntos!
- Foi um beijo! Foi
um beijo! Helena disse quase sussurrando para não assustar a borboleta.
E ela quis que a
borboleta me beijasse.
- Fica quieta! Você
vai ganhar um beijo também.
Eu tive medo. E
fechei os olhos com força. Sentia a mão de Helena por perto. Mesmo sem abrir os
olhos sentia o cuidado que ela tinha comigo.
Seus dedos tocaram a
ponta do meu nariz. E logo em seguida as perninhas da borboleta fizeram o mesmo.
Eu abrir os olhos bem devagar. Tive vontade de rir, com aquelas antenas e asas
coloridas que me deixavam tonta. Não pude mais ver nenhuma cor separada. Via
todas de uma vez só.
Helena sorriu pelo
feito. E eu a sentir segurar minha mão, dessa vez com mais força. Com mais vontade.
Foi tudo por amor ao beijo.
Fechei os olhos de
novo. E quando abrir, Helena e a borboleta estavam na mesma distância.
Nossos narizes se
tocaram. A borboleta instintivamente voou, mas era como se ainda estivesse lá.
Eu. Helena. A borboleta. Todas paradas no tempo esperando o beijo.
Nossos
lábios estavam a um fio de se tocarem. E dessa vez fui eu quem beijou Helena. Foi com mais força do que o planejado. E só por isso
deixou de ser beijo. Senti vergonha e só pude olhar para o chão. Helena sorriu
e me beijou de volta. Mas seus lábios estavam molhados. E pareceu poesia.
Helena
sorriu de novo e foi em pequenos pulos em direção a janela. Debruçando-se toda contra
a luz fraca do dia que morria.
-
Acho que as bonecas já secaram. Quer brincar? Helena disse como se eu ainda
estivesse perguntando sobre das bonecas.
-
Quero! Respondi com um sorriso. Porque na verdade, eu ainda estava.

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