sexta-feira, 31 de maio de 2013

Alice




Punhos atados. Boca molhada.
Faltava ar.

Entre um movimento e outro, Alice empinava o corpo. Suspirava. E com os olhos levemente fechados, dizia coisas desconexas. Do tipo: “As nuvens são tão macias, assim de perto.” ou “Eu só quero ver com você os tons de azul do céu.”. E beijava meus olhos com os seus olhos ternos.  

Sentava na sua cintura depois disso. De joelhos entre o seu corpo, imaginando que entre nossas carnes haviam corações coloridos, listrados ou no mínimo: florescentes. E eu logo desatava os nós cegos de seus punhos. Ela tocava meu coração. Eu tocava o dela. Só assim poderíamos deixar de caber em qualquer buraco perto da solidão.

Alice dizia que meus medos alcançavam o teto, quando eu a acarinhava em seus sonhos. Eu nunca acreditei. No sonho, não em Alice! Mas suspeitava constantemente que ela feita de açúcar ou alguma coisa bem doce. Fácil de diluir. Porque ela parecia de mentira – aquelas de dizer pra si mesmo, quando se está a poucos segundos de um sono profundo. 

Continuava a beber. O líquido escorria quente pela minha garganta. E um pouco depois por entre os seios de Alice. Descia delicadamente. E o rastro era condenado à língua. Era tudo tão breve.

Eu sempre acordava com o livro na mão. Com a capa cada vez mais riscada. Lia-se: Alice no País das Armadilhas.

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