Ela delicadamente
arrastou as pontas dos dedos pelas paredes densas do ateliê. E deixou-se ser
guiada pelo cheiro de tinta, que ficava cada vez mais forte.
Sentiu toda a poeira
sendo arrastada, pelo indicador e médio. A secura dos movimentos infiltrava-se
nos poros, trazendo consigo um certo gosto. O gosto que ela nunca sentiu.
De repente passos.
Involuntários. Acidentais. Foi assim até chegar onde a tinta permanecia fresca.
Viva! E quis as duas mãos para sentir toda aquela cor meio... meio...Ela ainda
não sabia dizer.
Mas fez com que as
mãos ultrapassassem as roupas. A tinta pintava a cor à vontade. Com vontade!
Era qualquer espécie de loucura.
E se via a tato. Já
que os olhos, tão lindos, de nada serviam. Ela
dizia. Pois acabava de descobrir o amor. Um buquê, lírios. Ela tinha quase
certeza.
O passo em falso
acabou fazendo com que perdesse o equilíbrio. Ouvia-se a pancada do corpo. E os
goles fartos da garrafa de vinho que caia juntamente com ela no chão. Já não
fazia a menor ideia do que era lucidez. E já era tão tarde. Estava para sempre
condenada a cegueira. Ela sabia. Era
um mal de infância.
Mas a condenação àquela
lembrança. O beijo. O cheiro da flor.
Era como se estivesse esperando por isso a vida toda.

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