quinta-feira, 2 de maio de 2013

Borboletas, Lírios ou Camaleão.


Ela delicadamente arrastou as pontas dos dedos pelas paredes densas do ateliê. E deixou-se ser guiada pelo cheiro de tinta, que ficava cada vez mais forte.

Sentiu toda a poeira sendo arrastada, pelo indicador e médio. A secura dos movimentos infiltrava-se nos poros, trazendo consigo um certo gosto. O gosto que ela nunca sentiu.

De repente passos. Involuntários. Acidentais. Foi assim até chegar onde a tinta permanecia fresca. Viva! E quis as duas mãos para sentir toda aquela cor meio... meio...Ela ainda não sabia dizer.

Mas fez com que as mãos ultrapassassem as roupas. A tinta pintava a cor à vontade. Com vontade! Era qualquer espécie de loucura.
E se via a tato. Já que os olhos, tão lindos, de nada serviam. Ela dizia. Pois acabava de descobrir o amor. Um buquê, lírios. Ela tinha quase certeza.

O passo em falso acabou fazendo com que perdesse o equilíbrio. Ouvia-se a pancada do corpo. E os goles fartos da garrafa de vinho que caia juntamente com ela no chão. Já não fazia a menor ideia do que era lucidez. E já era tão tarde. Estava para sempre condenada a cegueira. Ela sabia. Era um mal de infância.

Mas a condenação àquela lembrança. O beijo. O cheiro da flor. Era como se estivesse esperando por isso a vida toda.

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